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Opinião: Uma profissão de risco no século XXI (parte I), por Francisco Vale

23.06.10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte I),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.

 

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

A frase era irónica, numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos ecrãs e desabituada de livros.

Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da edição electrónica revelavam-se apressadas.

Nos últimos anos acentuaram-se, contudo, as mudanças nos processos de circulação de textos e de outros materiais semânticos com a generalização dos computadores, a Internet e o ciberespaço. O surgimento de leitores de e-books com ecrãs de tecnologia e-ink, a redução dos seus preços e a disponibilização crescente de obras como resultado da corrida entre o Google e a Amazon fizeram o livro digital entrar em directa concorrência com a sua versão impressa.

Ao contrário do que ocorreu na década de 90, as previsões sobre o livro electrónico começam agora a ser antecipadas. É o que deverá suceder com o recente estudo internacional, citado por Juergen Boos, director da Feira de Frankfurt, que prevê que em 2018 as vendas de conteúdos digitais ultrapassem as do livro tradicional.

Há actualmente cerca de um milhão de leitores de e-books, sobretudo nos países anglo-saxónicos. Dentro de alguns anos serão dezenas de milhões, envolvendo uma parte considerável dos «grandes leitores» em todo o mundo.

O projecto do Google Books, de digitalizar o maior número possível de livros prossegue, apesar do desaire que conheceu nos EUA. Em breve, uma parte importante das obras no domínio público e outras negociadas com editores e autores estarão na Internet ao alcance dos dispositivos com ela conectáveis, computadores, televisores, iPhones, telemóveis e leitores de e-books.

Em vários países as bibliotecas públicas emprestam obras electrónicas aos associados. Os próprios ensaios e revistas tradicionais começam, também eles, a integrar imagens digitais móveis. E as marcas de leitores de e-books multiplicam-se, o mesmo sucedendo com as plataformas de difusão ainda em busca de uma linguagem comum.

O digital ocupa hoje uma pequena faixa costeira no continente do livro. Mas é uma maré que alastra, reflui e de novo avança removendo obstáculos e decidida a, dentro de algumas décadas, deixar apenas ilhas e arquipélagos de romances impressos ao alcance dos leitores de ficção.

Enquanto mercadoria com valor cultural, o livro tende a tornar-se um ramo da sociedade multimédia, muitas vezes remetido ao estatuto de fornecedor de conteúdos. O suporte em papel surge como uma das suas modalidades possíveis. E a mudança para o digital vai a par com a alteração das capacidades imagéticas e uma maior dispersão dos jovens leitores.


[Parte II]
[Parte III]
[Parte IV]
[Parte V]


(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

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