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Opinião: AMOR AOS LIVROS #2 - A minha vida dá um livro, por Paulo Gonçalves

01.06.09
AMOR AOS LIVROS #2: A minha vida dá um livro,
por Paulo Gonçalves (*)

Regresso a casa. Trânsito, claro, como não podia deixar de ser, ou não tivessem já batido as oito. E chuva, muita e certinha, batida a vento do norte, que isto do Inverno na Invicta é marca registada e não ficava bem se fosse de outra forma. Isto, pelo menos, o aquecimento global ainda não alterou.

Para trás, mais um dia daqueles. Muita coisa feita, muito ainda por fazer e a moer o juízo. Mas o dia só tem 24 horas. Como diria o outro, é a vida.

Toca o apêndice. Espreito o visor – trabalho, aposto; e aposto muito bem já com o auricular, que isso de multas é para quem as pode pagar. E este pára-arranca começa a ser desesperante.

Enquanto falo, percebo uma segunda chamada [já t’atendo], que entretanto desliga. Terminada a primeira conversa, vamos lá ver quem me ligava a esta hora.

­– Boa noite! Recebi uma chamada deste número há momentos…

– Sim, sim! Viva, boa noite! Desculpe incomodá-lo tão tarde, mas precisava de falar consigo e o seu contacto foi-me dado por uma jornalista.

[Nota mental: por onde andará o meu número de telemóvel?]

O tom pausado não disfarçava a ansiedade na voz.

– Sabe, queria falar consigo porque li uma entrevista com aquela vossa escritora muito famosa e fiquei com vontade de falar com ela.

Bom, parece-me pacífico. As novas tecnologias existem para isso mesmo e, com elas, não há fronteiras. É sempre bonita esta frase-feita. Ah!, o conforto do disparate quando estamos sozinhos no carro é irresistível.

– Quero que ela escreva um livro para mim com a história da minha vida.

Ora aí está uma boa altura para puxar do cigarro, que a conversa promete.

– Pois – digo eu, enquanto baixo o vidro para deixar entrar o frio tripeiro que há-de limpar o fumo – essa é uma proposta curiosa…

Curiosa o tanas!, só me faltava esta para acabar o dia. Ou começar a noite.

­– Ela é a escritora ideal para a história que tenho para lhe contar. Li o livro dela e não tenho dúvidas: é ela que quero para escrever a minha história.

O entusiasmo da senhora era directamente proporcional à minha incredulidade. Trânsito, chuva, frio, noite cerrada, cansaço… Entrei na Quinta Dimensão e não notei?

– Não sei como lhe dizer isto… Na verdade, essa autora não escreve livros por encomenda. É claro que se inspira em episódios das vidas de pessoas com quem se cruza, mas daí a escrever para outra pessoa vai uma grande distância.

– Mas eu tenho a certeza que ela vai querer assim que eu lhe contar a minha história. Consegue-me marcar um encontro com ela?

– Receio que essa seja uma possibilidade muito remota…

– Porquê?

– Ela não vive cá.

– Em Lisboa?

– Em Portugal…

Silêncio. Curto, mas desfrutado com imenso prazer.

– Então, talvez eu possa encontrar-me consigo. Conto-lhe a história e arranja-me um escritor para ela.

É definitivo: estou na Quinta Dimensão. Ou então é para os apanhados.

– De certeza que conhece muitos escritores e vai ser fácil arranjar um para escrever a minha história. Mas tem de ser bom escritor. E de entender francês e alemão.

– …

– Quando nos podemos encontrar? Amanhã à tarde vou ao Chiado…

Salvação!!!

– Bom, minha senhora, isso também é algo difícil de acontecer…

– Não me diga que também não está em Portugal?

– Estou, estou, mas eu vivo no Porto e, como deve compreender, não é fácil agendar uma deslocação a Lisboa tão em cima da hora… Deixe-me propor-lhe o seguinte: porque não me envia um e-mail com a sua história, mesmo que seja em traços gerais, e vê-se o que se pode fazer?

Eu já estava por tudo.

– Isso não! Nem pensar! Só conto de viva voz. 

A senhora, felizmente, não.

- É uma história com episódios muito pessoais e só a conto directamente a quem tratar de a publicar em livro.

O trânsito parecia, finalmente, mais fluído.

– Então não sei como posso ajudá-la.

A chuva abrandara.

– Pois, de facto. E a minha história vale mesmo a pena, acredite.

– Acredito, claro! – Mas o frio não esmoreceu. Há que fechar a janela, até porque o cigarro acabou uns «tirem-me deste filme» atrás. 

– Deixe-me pensar como podemos ultrapassar esta dificuldade. Eu telefono-lhe. Que diabo, queria mesmo aquela escritora!

– Pois…

Agora na VCI, faixa esquerda livre, BB King e a sua Lucille em grande nível, a olhar pelo retrovisor à espera de ver o genérico da Quinta Dimensão e a interrogar-me que história teria ela para contar…

Daria um bom livro?

(*) Formado pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, Paulo Gonçalves está na Porto Editora desde 1996, sendo Responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem há 10 anos.
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