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Opinião: O iPad e a pirataria de e-books, por Ricardo Silva

30.04.10
N. E.: texto originalmente publicado no sítio Web eBook Portugal.

O IPAD E A PIRATARIA DE E-BOOKS,
por Ricardo Silva (*)

O sucesso do iPad e das tablets concorrentes vai provocar um aumento significativo da pirataria de e-books já a partir de 2010.

Depois da pirataria de software, música e filmes sangrar há anos a indústria informática e de entretenimento, a disseminação ilegal de e-books vai agora começar a atormentar a indústria livreira a nível mundial, mas poupando… jornais e revistas.

Porquê só agora?
Numa época (ainda) de recessão económica, em que a leitura, o cinema e os jogos sociais on-line actuam como um escape psicológico, o fácil acesso a uma oferta infindável de e-books piratas gratuitos vai agora tornar-se muito mais atractivo.

Mas porquê só agora? Porque, ao fim de uma década de tentativas falhadas a indústria informática começou finalmente a vender aparelhos de segunda geração (pós e-ink) que permitem o consumo confortável de livros digitais em qualquer local ou ocasião, com ecrãs a cores e sensíveis ao toque.

Quanto aos e-books: best-sellers, romances de ficção, antologias, poesia, biografias, dicionários e guias culinários, tudo passa a estar à mercê dos piratas que os disponibilizam e dos leitores que os consomem.

As estatísticas do Google mostram um interesse crescente dos consumidores em obter e-books. Em 2010, essa tendência poderá explodir, dependendo somente do sucesso das vendas de e-readers e do preço dos e-books.

O que mudou?
Até agora, os e-books piratas não prejudicavam grandemente as vendas das edições em papel e até eram benéficos (!) em muitas situações, pois serviam de aperitivo (teaser). Autores como Paulo Coelho chegaram mesmo a incentivar a pirataria dos seus próprios livros!

Ora, o leitor imprimia ou lia no computador (ou num smartphone!) dois ou três capítulos do e-book e, quando gostava, sentia-se compelido a comprar a edição em papel. Pois aprende-se rapidamente que não compensa nem é prático gastar papel e tinta a imprimir um romance de 300 ou 400 páginas em folhas A4…

Isso tornou os e-books pouco atractivos durante anos, não afectando as vendas em papel. Até agora.

O caso especial dos manuais escolares
Num nicho à parte, a disseminação de manuais escolares em versão «e-book pirata» vai ser mais peculiar e fragmentada, pois é condicionada pela localização/país do consumidor, pelo currículo escolar nacional e pelo dinamismo das editoras.

Que é como quem diz: os manuais escolares oficiais mais populares e mais caros (que estiverem disponíveis) serão os primeiros alvos preferenciais do circuito alternativo de distribuição de e-books.

No caso português, várias editoras já complementavam os manuais em papel com materiais educativos e lúdicos em CD/DVD. Esses materiais, incluindo versões electrónicas dos manuais, eram muitas vezes ignorados (!) pelos alunos e encarregados de educação. Até hoje.

A sedução das versões originais
Globalmente, o idioma dos «e-books piratas» também vai influenciar a sua popularidade. Perante a inexistência de uma edição nacional de um determinado best-seller, alguns leitores mais fluentes poderão agora optar facilmente pela versão original, se ela estiver disponível.

Dada a qualidade discutível de determinadas traduções, isso até poderá constituir um aliciante inesperado.

Jornais, revistas e… a banda desenhada
Um pouco mais resguardadas do fenómeno da pirataria vão estar as editoras de jornais e revistas. Os seus produtos não têm tido grande circulação nos sites piratas e redes torrent/P2P, com excepção das revistas técnicas, masculinas e… da banda desenhada.

Aqui, o caso muda de figura. É fácil prever um aumento exponencial na pirataria de comics americanos e manga japonesa. Os novos tablets são uma excelente plataforma para a visualização deste tipo de publicações, devido à semelhança nas dimensões das tablets e da BD em papel. As primeiras aplicações para visualizar BD no iPad já estão a chamar a atenção.

A cereja em cima do bolo é que estamos perante um tipo muito específico de consumidor.

Há uma grande sobreposição entre o perfil do leitor-típico de BD e o do comprador-típico deste tipo de gadgets

Os standards e o malfadado DRM
É claro que as editoras de livros estão há meses a matutar no que fazer, para tentar evitar que o céu lhes caia na cabeça, como aconteceu às editoras discográficas e cinematográficas.

Desde meados de 2009 que era consensual o facto de que iriam surgir inúmeros modelos de tablets apetrechados com software para ler e-books e que o fenómeno da pirataria poderia explodir.

A popularidade/adesão à pirataria de e-books será agora determinada:
— pelo preço das edições legais;
— pelos formatos digitais dos e-books (standard/abertos versus proprietários); e
— pelas eventuais contra-medidas adoptadas (tecnologia anti-pirataria ou DRM).

Como combater a pirataria
Os últimos anos mostraram que, se um determinado produto estiver facilmente acessível e a um preço razoável, os consumidores preferem-no em vez de recorrerem às versões pirata.

Veja-se o caso do iTunes, com uma interface amigável, multi-plataforma… e músicas avulsas a 99 cêntimos.

Se os e-books das livrarias on-line forem vendidos a preços acessíveis e estiverem disponíveis em formatos standard/abertos (como ePub ou PDF) e sem truques DRM, essas serão as medidas mais eficazes para desincentivar a pirataria de e-books.

Infelizmente, esta não parece ser a visão da indústria, que aumentou recentemente o modelo de preços dos e-books vendidos on-line, numa altura em que a Apple tenta a todo o custo cativar potenciais compradores, levando o resto dos fabricantes a reboque.

Cá vamos nós outra vez… RIAA versão 2.0?

(*) Ricardo Nuno Silva tem 40 anos e já assistiu a muitas modas tecnológicas e a umas quantas revoluções digitais. Passou a última década a observar a influência da tecnologia na sociedade, com uma dose saudável de cepticismo.
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