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Opinião: Uma profissão de risco no século XXI (parte IV), por Francisco Vale

30.06.10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte IV),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]
[Parte II]
[Parte III]


Futuros conjugados

Neste início de século, o destino do livro impresso depende da configuração psíquica das novas gerações, da sua habituação a leitura em ecrãs, um processo em que a plasticidade neurológica surge configurada pelas novas tecnologias de informação, os jogos de computador e consola e as artes de vanguarda ligadas ao vídeo.

Sobre estes aspectos é possível extrapolar observações de McLuhan sobre a influência cognitiva e social de novos media. Sabemos que saímos de uma civilização em que o livro impresso foi um meio de distanciamento e objectividade, que encorajou a iniciativa individual e finalidades pessoais, e que, em termos de alta cultura, conviveu bem com regimes ditatoriais. A sociedade em que já estamos é mais povoada de imagens, oral, sonora, interactiva e em rede, talvez com maiores potencialidades de participação política e resistência a projectos ditatoriais, pelo menos em formas declaradas.

Neste contexto, o livro impresso e a literatura parecem mais do que nunca reunidos num futuro incerto.

É a primeira vez que isso sucede desde o tempo em que a literatura era feita de narrativas sem suporte algum fora do corpo humano, como nos mitos, lendas e alegorias que seriam reunidas no Antigo Testamento e na poesia épica oral, do Gilgamesh à Odisseia.

Depois, e por muitos séculos, a literatura esteve associada ao papiro e ao pergaminho. Desde 1439, com a invenção dos caracteres móveis, a literatura e o livro impresso passaram a estar ligados na forma que hoje conhecemos. Mas o romance e o conto só puderam florescer, no século XVIII em Inglaterra e no século XIX na França e Rússia, com o advento da sociedade burguesa, a vida privada e os espaços de silêncio e lazer. As absortas leitoras dos quadros de Fantin-Latour são a melhor ilustração desse período.

Nas últimas décadas — com as mudanças da vida urbana e a expansão da oralidade, da música e do multimédia — o romance e mesmo o conto revelam-se géneros históricos e, portanto, perecíveis.

E se esses géneros literários vierem um dia a perder vitalidade, não parece haver razões para o livro impresso, ou mesmo electrónico, sobreviver na forma e com a influência que hoje possui.

Esse eventual definhamento não será efeito do suporte digital do livro, nem consequência directa das novas tecnologias e meios de comunicação. No passado, as mudanças na literatura não foram o resultado da passagem da narrativa oral para a escrita ou do livro em pergaminho para o tipográfico. Foi Homero que subverteu a poesia épica, não o facto de ela ter deixado de ser oral. As peças de Shakespeare, que permaneciam muito tempo manuscritas, não devem a sua ruptura com o drama isabelino à impressão em tipografia. As regras da criação literária têm uma larga autonomia das tecnologias que utilizam. Contudo, e ao contrário do que Harold Bloom sugere em O Futuro da Imaginação, são sensíveis aos contextos sociais, como se pode ver nalguns casos limite. É difícil de aceitar como coincidência individual de criadores geniais o que sucedeu com a arte e a filosofia na Grécia de Péricles, e com a literatura na Rússia que vai da libertação dos servos à revolução de 1905 e viu surgir Tolstói, Dostoievski, Tchékhov e Turguénev. O mesmo se poderia dizer do que ocorreu nos anos 30 a 50 nos EUA com Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Flannery O’Connor, Eudora Welty e Carson McCullers. Uma prova pela negativa é dada pela prolongada mediania da ficção francesa contemporânea em contraste com a joyciana fecundidade das letras irlandesas.

Actualmente só uma reduzida percentagem de adolescentes consegue ler sem a companhia de um som musical. A questão já não reside apenas na ausência de espaços de silêncio que permitam uma leitura atenta. Está também na recusa do próprio silêncio, em considerar a solidão da leitura inaceitável, na dificuldade de imaginar a partir da escrita fonética. É mesmo possível que se caminhe para uma certa dissociação entre a leitura e o livro, sobretudo o digital, tomando-se a leitura sequencial mais rara em benefício da fragmentária. O facto de os leitores de e-books serem conectáveis com a Internet e o inesperado êxito do Twitter confirmam esta possibilidade.

Aqueles que, como Steiner, celebram a diversidade permitida por Babel e encaram cada língua como a possibilidade de um mundo emocional diferente sentem a uniformização da literatura e a transformação do anglo-americano em novo esperanto como ameaças à criatividade.

Hoje a vulnerabilidade da literatura vem também da atracção exercida sobre muitos escritores de talento pelas possibilidades que a televisão, o cinema, a Internet e outros media oferecem em termos financeiros e de novos processos narrativos. Não é absurdo pensar que se Eça e Camilo vivessem hoje estariam a escrever argumentos televisivos ou cinematográficos e que os equivalentes de Os Maias e de Amor de Perdição teriam formas diversas.

E, no entanto, a escrita de contos e romances continua a ser a que menos meios tecnológicos exige, uma esferográfica e um papel ou um processador de texto. A escrita surge no prolongamento quase imediato da mão, está próxima da biologia humana, o que faz com que as obras surjam como resultado imediato da imaginação. É por isso que o livro é considerado um manancial de conteúdos para o multimédia e que escritores de talento vão resistindo aos apelos da televisão e da Internet.


[Parte V]

(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

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