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Blogtailors - o blogue da edição

Discurso de Nelson de Matos na apresentação de Carlos da Veiga Ferreira: Os editores não se abatem

13.11.13

 

No lançamento de Carlos da Veiga Ferreira: Os editores não se abatem, o editor Nelson de Matos, amigo de Carlos da Veiga Ferreira e responsável pela apresentação do livro e do entrevistado, leu o texto que agora reproduzimos.

 

O discurso foi proferido no dia 24 de outubro, na Fundação José Saramago, em Lisboa. O segundo lançamento do livro de Sara Figueiredo Costa acontecerá na próxima sexta-feira, dia 15, em Penafiel, cidade natal do editor entrevistado.

 

«Quero começar por vos cumprimentar e agradecer a vossa companhia.

 

Cumprimento igualmente os meus colegas de mesa, o homenageado, Carlos da Veiga Ferreira, o seu Editor e a autora do livro.

 

Vou ler-vos um texto breve para que todos possamos usar da palavra sem vos maçar demasiado.

 

***

Este livro tem uma particularidade curiosa: do início até ao final vai-nos conduzindo, lentamente, a entender o significado do seu próprio título: “os editores não se abatem”.

 

Parece ser uma verdade…

 

Quer em Portugal, quer em outros países, são muitos os exemplos: ao contrário dos cavalos os editores nunca se deixam abater.

 

Resistindo às crises, às vezes ao insucesso comercial, às pressões e ataques de toda a ordem, à gulodice dos grandes Grupos, os editores souberam quase sempre encontrar as formas de continuar a inventar a sua profissão, defendendo a sua paixão pelos livros, a relação com os seus autores, o compromisso com os seus leitores.

 

Foi isso o que fez na América André Schiffrin (que é citado no livro), foi isso o que fez o Carlos da Veiga Ferreira, foi isso o que fizeram outros, ausentes e presentes nesta sala. Mudar, seguir em frente, não abdicar dos riscos nem das aventuras da sua profissão.

 

É essa a história de que nos fala este livro, uma história de resistência, o percurso de vida e de trabalho de Carlos da Veiga Ferreira relatado através de uma cuidada entrevista escrita por Sara Figueiredo Costa  —  a quem felicito pela elegância e argúcia do seu trabalho.

 

Conheci o Carlos no Café Monte Carlo aí pelos finais dos anos 60. Nenhum de nós era editor e provavelmente nem pensávamos que um dia o viríamos a ser. Ocupávamo-nos das coisas culturais e da política, dos jornais, do cinema, da literatura, líamos, discutíamos, mas sobretudo preocupávamo-nos com a guerra, que pesava e ameaçava com toda a sua brutalidade os nossos 20 anos.

 

Foi só depois do 25 de Abril que ambos chegámos à edição, em datas e de modos diversos. Enquanto eu me iniciava na Arcádia com uma nova edição do “Portugal e o Futuro”,  de Spínola, ele teve ainda que lutar, durante alguns anos, para solucionar os problemas que a Teorema enfrentava quando da sua chegada. Carlos sempre foi um homem dinâmico, batalhador, persistente. Mas ao mesmo tempo companheiro, generoso e amigo. Ao longo dos anos estivemos quase sempre juntos nas Feiras do Livro de Frankfurt, Londres, Madrid, Barcelona, Paris. Viajávamos juntos, repartíamos os táxis nas deslocações entre os hotéis e o recinto das feiras, jantávamos juntos após o trabalho, conversávamos sobre as novidades editoriais que estavam em concurso. Raramente estivemos em competições irredutíveis. Ou, quando estivemos, sempre discutimos as divergências com lealdade e cortesia.

 

Fazíamos o mesmo em Lisboa. Nas feiras do livro, nas reuniões da APEL, na fundação do Clube de Editores, nos jantares conspirativos que deram origem à União dos Editores Portugueses, na direcção e iniciativas da UEP, e até em simples jantares de convívio e troca de informações que hoje ainda fazemos, na companhia das respectivas mulheres, praticamente todas as semanas.

 

No meio deste convívio, trabalhamos… por muito que isso vos custe a acreditar. Falamos de livros e de autores, trocamos impressões sobre o chamado "mercado do livro", procuramos ter uma intervenção constante sobre os modos e condições da nossa actividade, repartimos "segredos", informações, confidências, praticamos um pouco dessa "má-língua" sem a qual a nossa profissão teria menos picante.

 

O Carlos sempre foi um persistente lutador. Desde as dificuldades que teve de vencer quando tomou a responsabilidade de se juntar ao que restava da Teorema inicial, às iniciativas que tomou depois, sozinho, para desenvolver a empresa, construir um Catálogo coerente, transformá-la numa das mais prestigiadas editoras portuguesas. Na época do aparecimento e do crescimento dos Grupos nacionais da edição, quando ele aceitou vender a Teorema, fê-lo na condição de que fosse preservada a marca, o catálogo e a imagem continuando, por acordo escrito, a manter-se na sua direcção editorial.

Enganou-se  —  alguns Grupos não conhecem a lealdade, nem mesmo quando ela está escrita e assinada. Teve de sair. Mas mesmo assim não se abateu. Fundou a Teodolito, com o apoio da editora Afrontamento, e ei-lo a voltar ao começo reavendo o entusiasmo e a força iniciais, construindo um novo catálogo que começou já a dar sinais da qualidade que ele costuma imprimir em tudo o que faz.

 

É esta a história que esta entrevista nos relata, com mais pormenores evidentemente, com maior sentimento e bom humor, dado que é ele próprio a relatar-nos o seu percurso e as suas lutas.

 

Este livro é-lhe uma homenagem mais do que justificada.

 

Felicito por isso a Autora e os editores da Booktailors, agradecendo o convite que me fizeram e a honra que me proporcionaram por estar aqui com o Carlos e com todos vós.

 

Muito obrigado.»

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